Marie Santini: À frente do NetLab, da UFRJ, que produz pesquisas sobre vida digital e internet, a professora defende a criação de observatório de transparência das big techs
- 26 de jul.
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Jornal O Globo - 26 de julho de 2026

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Desde o ano passado, o CEO da OpenAI, Sam Altman, admite: o desenvolvimento da inteligência artificial, que estamos presenciando hoje de forma acelerada, pode ser comparável ao da bomba atômica, nos anos 1940. A inquietação é partilhada em todo o mundo por quem se dedica, com olhar crítico, a pesquisas relacionadas a algoritmos inteligentes, redes sociais, desinformação e seus impactos na sociedade. No Brasil, uma voz que se destaca é a de Marie Santini, fundadora e diretora do NetLab, da UFRJ.
Os riscos derivados da falta de uma regulação que assegure a proteção dos usuários, a prevalência da lógica do lucro acima das responsabilidades das big techs e o lobby exercido por essas empresas têm pautado os alertas da especialista, que vem chamando a atenção também para o fato de, até aqui, não haver controle sobre o que é feito dos dados dos usuários captados on-line.
— Enquanto não regularmos essas tecnologias, continuaremos colhendo o pior de seu potencial, colocando em risco principalmente mulheres e crianças. Regular significa enfrentar empresas que se desenvolveram sem regras e não demonstram disposição para obedecer nada, em lugar nenhum do mundo — diz Marie, que tem 46 anos, é professora da Escola de Comunicação da UFRJ e fundou o NetLab em 2013, para produzir pesquisas relacionadas à internet e à vida digital.
Para o bem e para o mal, a revolução que se deu de lá para cá todos nós vivenciamos e conhecemos bem. As análises do NetLab vão além: indicam que as novas tecnologias, se seguirem em um ecossistema desregulado e sem transparência, vão acabar por transformar a sociedade de forma irremediável, com o perigo real de chegarmos a um quadro de colapso global.
Não bastam mais leis locais, alerta Marie, uma vez que o problema é de todo o planeta:
— É necessária a criação de um órgão global de supervisão, algo semelhante à Comissão Reguladora Nuclear — explica. — Estamos construindo um consórcio internacional de centros de pesquisa para criar um observatório de transparência das big techs. O projeto nasceu no Brasil, de uma iniciativa do Netlab UFRJ com o Ministério da Justiça, e ganhou alcance mundial por uma parceria com a Universidade de Cambridge. A inspiração vem do Comitê de Cientistas Atômicos, grupo de pesquisadores que lutou pelo uso pacífico da energia nuclear, alertou o mundo e embasou negociações, como o Tratado de Não- Proliferação de Armas Nucleares.
A iniciativa prevê a cooperação entre laboratórios de pesquisa de ponta em diferentes países e a divulgação de evidências científicas da gravidade da situação. Parte do seguinte pressuposto: muita gente com a caneta na mão, incluindo autoridades, ainda ignora as ameaças. Do sucesso dessa empreitada, espera Marie, pode sair a semente de um ambiente digital mais saudável e seguro para todos. "Um propósito coletivo dá sentido à vida" é uma frase que ela usa para definir suas batalhas.


