Unequal data access regimes in social media
- 15 de jul.
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Atualizado: 29 de jul.
Political Communication Report

A arquitetura digital contemporânea está amplamente fundamentada em regimes de dados, isto é, ecossistemas sociotécnicos que regulam a relação entre as infraestruturas digitais, nossos rastros online e a apropriação privada de dados públicos. No regime de dados atual, os dados públicos das redes sociais não constituem um bem comum digital livremente acessível (Fuster Morell, 2010), mas integram um processo mais amplo de cercamentos digitais (digital enclosures), por meio do qual corporações tecnológicas extraem, mercantilizam e restringem o acesso a esses dados (Andrejevic, 2013). Esses cercamentos digitais estabelecem uma hierarquia global que distingue os Estados soberanos capazes de regular e impor novos regimes de dados. Essa hierarquia depende tanto do poder estatal quanto da influência das corporações, tornando alguns países mais vulneráveis do que outros.
A lógica econômica predominante das grandes empresas de tecnologia levou a um processo contínuo de descontinuação e restrição dos mecanismos de acesso a dados. Em menos de uma década, observou-se um movimento regressivo em direção à crescente inacessibilidade dos dados. Enquanto regimes anteriores permitiam formas desiguais, mas ainda existentes, de acesso programático aos dados das redes sociais, os novos modelos restringiram significativamente esse acesso. De fato, após um breve período de "independência mediante permissão" (independence by permission) (Wagner, 2023), no qual as plataformas determinavam quais pesquisadores e quais pesquisas poderiam utilizar dados das redes sociais, o desdobramento natural desse regime corporativo manifestou-se na chamada "APIcalipse" (APIcalypse) (Bruns, 2019): a eliminação da maior parte das formas de acesso programático aos dados. Esse processo representa uma ameaça tanto à pesquisa científica quanto à fiscalização pública das plataformas.
A Meta oferece um caso particularmente elucidativo de como comunicação política, governança de plataformas e assimetrias regionais se articulam. No que diz respeito ao conteúdo gerado por usuários, a trajetória da empresa em relação à transparência dos dados ilustra uma tendência mais ampla de transição da abertura para a restrição. O que começou como um ecossistema relativamente permissivo para desenvolvedores — incentivando terceiros a construir aplicações sobre o grafo social do Facebook — foi sendo progressivamente limitado, especialmente após o escândalo da Cambridge Analytica, que intensificou as preocupações sobre o potencial uso indevido do amplo acesso de terceiros aos dados da plataforma. Como consequência, foram implementadas restrições que acabaram também prejudicando pesquisadores independentes (Venturini & Rogers, 2019). Desde então, a Meta passou inicialmente a adotar permissões mais rigorosas para suas APIs e processos mais restritivos de revisão de aplicações, evoluindo posteriormente para ferramentas de pesquisa cada vez mais controladas pela própria plataforma. Sua principal interface de acesso anterior, o CrowdTangle, apesar de suas limitações, ainda oferecia a jornalistas e pesquisadores um acesso relativamente flexível ao conteúdo público, tornando-se uma infraestrutura fundamental para o estudo da comunicação política no Facebook e no Instagram. Sua descontinuação, em 2024, e substituição pela Meta Content Library (MCL), muito mais restritiva, representaram um novo estreitamento das possibilidades de acesso independente aos dados. A MCL funciona como um ambiente de pesquisa de acesso controlado, cujos termos limitam a capacidade dos pesquisadores de extrair e analisar dados estruturados de forma programática e autônoma. Em conjunto com o encerramento do acesso acadêmico ao X e a monetização de sua API, essa transição tem sido amplamente apontada como um marco da era "pós-API" (post-API) na pesquisa em redes sociais (Tromble, 2021).
Como citar: Rose Marie Santini, Hugo Leal, Adriano Belisario & Bruno Mattos
(2026): Unequal Data Access Regimes in Social Media, Political Communication Report, 33, Universitätsbibliothek Mainz. DOI: 10.25358/openscience-15829.

